segunda-feira, 30 de julho de 2007

Catedral

Catedral

Estava andando no centro de Campinas. Tinha que gastar alguns minutos, pois meu compromisso era dali uma hora.

Entrei na catedral de Campinas.

Coisa esquisita aquilo. Uma construção antiga, com entalhe e mais entalhe em madeira.
Gente entrava para rezar, para dormir ou para não fazer nada, igual a mim.

Uma placa dava uma ordem: "visite a cripta". Obedeci intuitivamente. Sala de mármore branco todo mal conservado, com uns esqueletos podres do lado de lá do mármore.

Imaginei que seria um lugar diferente, maior, quem sabe. Desiludido, resolvi sair de lá.

E se tiverem que derrubar essa Igreja? Uma avenida, ou mesmo pra fazer outra Igreja. As pessoas nunca erguiam outra igreja com bingo.

Não sei se foi com bingo. Em algumas cidades, pelo menos é. Mas o dinheiro não vem, hoje em dia de bingo, mesmo porque bingo vira e meche está proibido.

Pensei que tudo aquilo poderia cair na cabeça de alguém um dia, afinal, todas as construções tem prazo de validade. Esqueci desses pensamentos, um pouco desconexos e resolvi explorar o lugar.

Andei em direção à capela onde tem uma luz vermelha que não se apaga porque ninguém apaga. Veio-me em mente que deveria ajoelhar.

Não sabia ao certo o porquê. O chão estava muito longe. Já não me lembrava direito como é que se ajoelha. Acho que deve doer o joelho. É, dói sim. A calça. Suja a calça. Outra hora eu ajoelho. Agora não. Entrei sem ajoelhar mesmo. Fui entrando pelo corredorzinho com tapete vermelho nitidamente desgastado. Decidi sentar lá na frente e ver o que acontece.

Não vi nada, porque não acontecia mais nada.

Lembro-me que antigamente, eu sentava em locais assim, e acontecia muita coisa.
Uma vez, por exemplo, me lembro que sentei assim, nesse tipo de lugar por horas tentando discutir com alguém, mesmo sozinho, o que eu faria da minha vida. Conversa ia, conversa voltava e se resolvia muita coisa. Esse alguém não estava mais lá.

O curioso é que não importa muito o fato. Fique esperando um pouco. Nada.

Acho que nesse nível de anestesia de espírito, não se conversa com ninguém quando se está sozinho. Alguém que não seja eu mesmo - quero dizer.

Talvez uma fumaça. Um raio que caísse do meu lado, para que pelo menos pudesse interpretar como uma mensagem divina. Mas nada.

É possível que se olhe para a plantação de trigo e não lembre mais dos cabelos dourados? Sinceramente não sei.

Sai, e mais uma vez fingi que não lembrei que tinha que ajoelhar para sair. Ninguém percebeu mesmo.

Uma vez um amigo do meu pai me disse que visitou um lugar em Jerusalém, onde não podia das às costas para o santíssimo, tinha que sair de ré até certo ponto.

Deve ser muito ruim ter que sair de ré, em um lugar onde você nem conhece direito. Veio-me em mente a imagem de um retrovisor. Sim, até bicicleta tem esses equipamentos...

Sai da Igreja e encontrei uma pessoa gritando lá fora, com a bíblia nas mãos. Uma vez fui falar com um sujeito desses. Era um homem barbudo. Eu tinha muito assunto importante para falar com ele. Não me lembro o que, só sei que era muito importante. Não me interessei em ir lá. Entrei numa livraria.

Encontrei um livro de Nietsche que falta em minha coleção. Desisti da compra. Eu não o leria.


Rafael Ribeiro Caponi

rafaelribcap2@hotmail.com

2 comentários:

Aline Silva Dexheimer disse...

Gostei dos teus textos, mas são um pouco melancólicos.
Abraço, ALine Dexheimer
www.alinedexheimer.com.br

Eu Transitivo disse...

De fato existe sim alguma melancolia neles, pois os escrivi em momentos condizentes.
Pretendo, no entanto, postar alguns com um final mais feliz em breve. Agradeço pela contribuição.