Pediu quinze dias de férias, pois andava muito cansado. O serviço de diretor de multinacional cansa qualquer pessoa. Cansou tanto, que resolveu viajar para um local no interior a fim de se dedicar um pouco à pescaria. Seria o lugar perfeito para descansar, pois lá o celular não funciona, e a internet ainda é coisa desconhecida. Sua mulher, que nunca vira um peixe vivo fora de aquário, não iria. Ela gostava de ler. Assinava muitas revistas e cuidava das plantas do jardim.
A empresa tinha vários acionistas que confiavam em suas decisões. Ele próprio era um deles.
Em casa, disse para a mulher:
--- Estou cansado e pedi uns dias para a empresa. Não aquento mais.
--- E o que você pretende fazer nesses dias? Perguntou a mulher curiosa.
--- Pensei em pescar no rio descanso feliz. Não é muito longe. O primo sabe chegar lá sem ajuda de mapa.
--- Você merece. Precisa mesmo descansar. Trabalha muito. Concluiu.
Virou a Chave da ignição. Quatro dias de liberdade!
Seu Jeep era muito sofisticado, tinha bússola embutida no painel e até tração 4X4. Indispensáveis apetrechos para quem anda diariamente na cidade
Alugou um quarto simples no hotelzinho da cidade. Pela manhã sairia para pescar.
Arremessou com força o anzol e sentou-se em sua cadeira de praia. Achava muitíssimo emocionante aquilo. Nada nem ninguém. Apenas ele, o rio, o primo, e as varas de molinete.
Descansou bastante, e no final do terceiro dia, preparava-se para voltar. Já estava bom. Hora de voltar para a selva.
Aconteceu que, no meio da viagem, quando o no service desapareceu do visor de seu celular, recebeu uma mensagem que lhe chamou a atenção: “Você recebeu 32 ligações de (11) 9252-1366 que não deixou recado na secretária”. Retornou a ligação.
--- Alô, quem fala? Perguntou.
--- Você é louco? Onde esteve? Não consigo te achar. Onde você está agora? Passa no escritório antes de tudo!Rápido!
Atordoado, desligou o celular, afinal, estava dirigindo.
Esse povo não sabe respeitar o descanso da gente. Pensa que empregado é escravo.
Apertou o botão do elevador. A porta se abrira e chegou ao escritório. A secretária lhe avistou e pediu que entrasse rapidamente na segunda sala à esquerda.
--- Olhe para isso! E apontou para a tela do computador.
O monitor exibia uma linha de gráfico, que indicava a cotação, em tempo real, do valor em que as ações da empresa estavam sendo negociadas.
Era uma catástrofe. E ele fora contratado para que nunca deixasse aquilo acontecer. Ficou pálido. Inevitavelmente, seria demitido. Tinha apenas cinco meses na empresa. Não teria nem seguro desemprego. Precisava vender suas ações. Rápido! Ele também era acionista da empresa. Seu dinheiro se metamorfoseava rapidamente em poeira. Correu até sua sala, ligou o computador. Entrou no site que administra suas ações. “Confirma o resgate total das ações?” Perguntava uma ultima janela. A tela do computador se apagou. Um caminhão batera no poste que alimentava o prédio.
Após dar cinco murros na porta do elevador, concluíu que ele não viria. A luz acabara. Voou escada a baixo. Tinha poucos minutos para se encerrar o pregão. Pegou o Jeep e chegou em casa. Tirou a chave do bolso. Abriu a porta e entrou correndo. Tinha cinco minutos. Ligou o computador e esperava o Windows carregar.
Começou escutar um barulho esquisito vindo do seu quarto. Subiu a escada com passos leves e abriu a porta. Vitrificou.
Sua mulher estava dividindo a cama com o jardineiro, com o limpador de piscinas e com o carteiro. Era, sem dúvida alguma, um sexo grupal.
Existem vários tipos de corno. Ele não era manso. Desceu até o escritório, e enquanto lutava para se lembrar o segredo do cofre, pensava em quantas balas gastaria.
Uma para o carteiro, uma para o limpador de piscinas e uma para o jardineiro. Três balas. Sua arma tinha seis tiros. Seria suficiente. Engatilhou-a. Correu para o quarto. Disparou o primeiro tiro. O segundo. O terceiro. O quarto. Era um seqüestro emocional completo, que se amenizou com o quinto tiro, que acertara o jardineiro, e que o fez cair morto no carpete branco. Os outros escaparam, um pela janela, outro pela porta da frente mesmo, pois sabia que nessas horas, deve-se fugir com pouca roupa mesmo.
Se escapassem, chamariam a polícia. Entrou no carro. Pisou fundo no acelerador. Os mataria atropelados. Um corria pela calçada apenas de cueca. Colocou duas rodas encima da guia. Apareceu uma viatura policial.
Desceu da calçada com o carro, e instintivamente acelerou forte pela avenida. Os pneus gritaram. Fim da linha.
O policial agora caminhava com passos nervosos.
Acompanhava-o pelo retrovisor. Abriu rapidamente a porta do carro e apontou a arma para o guarda. Tinha ainda uma bala.
O guarda, que não esperava pela reação, não quis ir tão longe para multar um indivíduo que transitara alguns metros numa calçada, tentando atropelar pessoas que andam de cueca na rua. Ele poderia ser um puritano ou algo assim. Levantou as mãos e rendeu-se.
Enquanto colocava o inocente guarda sobre a mira de sua arma, lembrou de muitas coisas, menos que se fosse preso, ficaria em cela especial. Cochilara nas aulas de noções do Direito.
Lembrou-se de uma matéria jornalística que viu na televisão, e que mostrava a realidade nos presídios. Lá existe estupro grupal. Com certeza, passaria a ter dificuldades para se sentar.
Começou pensar em muitas pessoas dividindo uma pequena cela por muitos anos, afinal, lembrava-se que matou um dos amantes de sua mulher.
Recordou-se também que ficaria desempregado e que não teria direito ao seguro desemprego. Lembrou também que perdeu tudo na bolsa de valores. Lembrou-se que sua família acabara, e por fim, lembrou-se do mais grave de tudo: morreria corno.
Colocou o cano da arma na boca e puxou o gatilho.
Rafael Ribeiro Caponi
rafaelribcap2@hotmail.com
2 comentários:
Trágico demais!
Podia ter um final mais positivo (risos)
Mas gostei.
Um Abraço, Aline Dexheimer
www.alinedexheimer.com.br
Um texto abrangente e realista, que te prende do inicio ao fim, que faz com que vc entre na historia e se sinta parte dele, não apenas como espectador, mas como personagem, onde vc se sente cansado, perdido, traído, desesperado.....
Parabéns!!!!!
Alexandra
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